Arquibancada Restrita
A elitização do futebol a partir da alta no valor dos ingressos e da transformação de estádios em arenas

A paixão pelo futebol

A paixão do brasileiro pelo futebol é mais do que uma simples admiração por um esporte.

Para muitos torcedores, o futebol vai além do entretenimento, é uma fonte inexplicável de emoções que variam entre a euforia das vitórias e a tristeza das derrotas. Torcer por um time é como pertencer a uma comunidade e a identificação com um clube cria um sentimento de pertencimento em que a vibração, as expectativas e as frustrações são compartilhadas por todos já que o fator de união é um só.

Marcel Diego Tonini, que é doutor e mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e desde 2021 trabalha como Pesquisador sênior do Centro de Referência do Futebol Brasileiro do Museu do Futebol, identifica que o rádio e o surgimento do jornalismo esportivo tiveram um papel crucial na massificação do futebol no Brasil, contribuindo para transformar o esporte em um fenômeno cultural de alcance nacional.

Com a popularização do rádio nas décadas de 1930 e 1940, o futebol passou a ser transmitido para um público muito mais amplo e que antes não tinha acesso direto aos jogos, especialmente em áreas afastadas dos grandes centros urbanos. A narração das partidas ao vivo com a emoção dos locutores esportivos criava uma experiência envolvente para os ouvintes e mesmo aqueles que não podiam estar presentes no estádio conseguiam se sentir parte do espetáculo, o que aumentou consideravelmente o número de torcedores e o interesse pelo esporte.

Por conta do jornalismo esportivo e do surgimento de programas de rádio especializados, de colunas esportivas em jornais e revistas, e mais tarde, da televisão, o alcance do futebol foi ampliado. Esses meios de comunicação não apenas informavam sobre resultados e classificações, mas também criaram narrativas e heróis, construindo o imaginário em torno dos jogadores e clubes. O futebol deixou de ser apenas um jogo e passou a ser parte do cotidiano das pessoas, alimentando debates e discussões em bares, praças e dentro dos lares brasileiros.

Com o tempo, o cenário de popularidade mudou. A elitização dos estádios nas últimas décadas devido ao aumento no valor dos ingressos tem afastado o torcedor comum e transformado o futebol em um entretenimento de luxo acessível apenas a poucos. O vínculo afetivo, que gera um enorme potencial de consumo, tornou-se mais perceptível quando o preço de um ingresso passou a comprometer uma maior parcela da renda mensal do torcedor.

Nesse sentido, Marcel afirma que com o futebol se tornou mercadológico quando as organizações que o organizam, as instituições e todas as empresas que o veiculam entenderam que seria mais vantajoso separar o público que consome o futebol como um produto. Foi então com a crescente influência dos patrocinadores, acordos de televisão e empresas de marketing esportivo que os clubes passaram a buscar formas de maximizar suas receitas. Isso resultou em uma alta significativa nos preços dos ingressos, tornando as partidas menos acessíveis para as camadas populares da sociedade. O futebol, que historicamente sempre foi um esporte popular, começou a ser visto como um produto para consumidores com maior poder aquisitivo.

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