Educação
‘Uma criança no esporte é menos uma no tráfico’, diz lutador
Jubila fala sobre sua relevância na vida das crianças de periferias e ressalta o impacto direto das artes marciais nas decisões desde a juventude

Por: Felipe Rezende

 

Willians “Jubila” discursando para o público após finalização para o Canal Combate, Rede Globo | Arquivo pessoal

Após vitória no Jungle Fight, em uma declaração essencial na Rede Globo, o lutador profissional Willians “Jubila”, da região do Capão Redondo, periferia de São Paulo, citou que “cada criança que entra no esporte é menos uma no tráfico” uma mensagem forte e essencial quando falamos sobre jovens de periferia. Ele desempenha um papel fundamental na sociedade como lutador e professor de artes marciais, tornando-se uma referência para os jovens no bairro em que ele nasceu. Ao sair nas ruas, Willians é abordado diversas vezes pelas crianças da sua comunidade, as performances dominantes das lutas servem de inspiração para as crianças do seu bairro com um caminho a seguir. O futuro dos nossos jovens pode ser diferente, com influência dentro e fora dos octógonos, trilhando o caminho delas para a disciplina das lutas. Willians é um espelho para o MMA brasileiro tanto dentro quanto fora do octógono. Em entrevista o atleta conta sua história e relembra os obstáculos enfrentados ao ter que conciliar os treinos com outras atividades, como telemarketing, entregas e obras, servindo de inspiração para profissionais que levam a mesma carreira esportiva.

Entrevistador (FR) – É possível viver exclusivamente da luta no Brasil?

Jubila – Exclusivamente, não. No Brasil,  falando como atleta de MMA, que é mais remunerado, entre as lutas, diferente do esporte olímpico, boxe, kickboxing, judô, e tudo mais. Eles conseguem por conta do bolso atleta, mas esportes que não são olímpicos, como o jiu-jitsu, e MMA , o muay thai eu creio que está migrando. Essa parte que não é olímpica, é muito difícil viver só de luta em si no Brasil, porque a gente vive de bolsa. A bolsa no Brasil é muito baixa e por isso que o objetivo de todo mundo que luta MMA 100% é ganhar cartel aqui no Brasil e ir pra fora pra lutar no UFC, um evento maior, porque você vai ser valorizado, vai ganhar em dólar, escrevendo pra cá, vai ser muito mais dinheiro. Então no Brasil, só de luta em específico eu acho que é quase impossível viver.

Entrevistador (FR) – Como era a sua rotina dividindo o emprego com as lutas?

Jubila – Hoje está relativamente tranquilo pra mim. Hoje eu luto pelo Jungle Fight e lá eu recebo uma bolsa mensal, Fora a bolsa deles de luta que é bacana, Pra nível nacional, eu acho que é a maior que tem. Hoje, relativamente tranquilo, mas dando aula também, e no passado, trabalhando de CLT, eu trabalhei como telemarketing, com 19  anos. Trabalhando e estudando é corrida.

Entrevistador (FR) – qual foi outras profissões que você teve trabalhando e lutando? alguma coisa que você pode citar?

Jubila – Com 16 anos eu fui jovem aprendiz e naquela jovem aprendiz era seis horas, treinava de manhã, trabalhava, treinava de tarde. Á noite escola, levava essa rotina, dormia muito pouco. Fazia o sono polifásico, dormia três horas durante o intervalo dos dias, depois, logo em seguida, ficando adulto, tive que morar sozinho, tive que trabalhar de CLT e continuei em busca do sonho, não tinha aquela flexibilidade, tem que bater o ponto, das nove às quatro da tarde e você tem que se desdobrar. Para conseguir treinar nesses intervalos veio a pandemia, comecei dar aulas, deu uma facilitada naquelas, porém, não é todo atleta que tem essa manha. vejo muitos atletas que são muito bons lutando, porém na hora de administrar a aula, de passar o seu conhecimento, ele acaba se complicando.

Entrevistador (FR) – Qual foi a maior lição que você tirou após todos esses anos tendo que dividir a carreira profissional com as lutas para sobreviver? Com muitos atletas que vão se identificar, qual conselho você pode passar pra eles?

Jubila –  Aprenda a dar aula, Eu sei que é cansativo dar aula, principalmente quem é iniciante, ninguém vai te passar uma turma de adulto, de atletas. tem que pegar a manha e vai ter que começar pela base, que são as crianças, ter que aprender a ministrar aula, passar o conhecimento de uma forma diferente, é uma criança, vai aprender a controlar, discipliná-la, e vai pegar algumas que são tímidas, que são indisciplinadas. Às vezes o pai não sabe criar.

Entrevistador (FR) – por que você acha que o MMA brasileiro não tem o seu devido reconhecimento? 

Jubila – Isso que eu também gostaria de ter a certeza, porque a gente é a nata, a gente criou o jiu-jitsu e o MMA, começou com o Royce Gracie no passado, eles que deram início a isso, e porque no nosso país não é valorizado? A gente é o país que teve mais campeões, é um dos que têm mais atletas no UFC, o ranking mundial. Creio que é parte da política do Brasil, a educação que a gente tem, a cultura de não valorizar o esporte em si. A gente fica muito “nichado” nisso, somos o país do futebol, mas também do jiu-jitsu, luta, vôlei, basquete, todo esporte que a gente for olhar, o Brasil tá ali no topo até mesmo nas Olimpíadas de Inverno.

Entrevistador (FR) – Você acha que ele vai ter o seu devido reconhecimento no futuro?

Jubila – A gente tem que ter esperança, a esperança é a última que morre. eu tento fazer a minha parte, falo muito isso nas minhas entrevistas pós-luta, eu consigo ajudar mais a sociedade com as minhas falas, não só com a luta em si. Pensando no início dessa ideia de ajudar os atletas mais ainda ou até mesmo mudar a cabeça  do pessoal de cima que manda (Planalto) o cara é um atleta olímpico, de alto nível, de ponta. Ele tá representando o seu país, ele recebe menos do que um cara que foi preso.

Entrevistador (FR) – Com todo o desgaste físico da segunda profissão, qual era o impacto gerado diretamente na preparação das lutas? 

Jubila – Atleta de alto rendimento, ele expõe o corpo ao extremo. Ele vai ser obrigado a viver com lesões, viver com dores, o corpo 100% fadigado, soma isso ao trabalho para sobreviver, no Brasil, a dificuldade dobra. Hoje é muito mais tranquilo, não que seja fácil, trabalhando com aulas, vai descansar o físico, vai desgastar mais o psicológico, porém trabalhando com luta, está desenvolvendo habilidades, atualmente eu durmo mais e tenho um desempenho melhor.

Entrevistador (FR) – Você teve um trecho muito feliz na pós-vitória, onde você citava: “Cada criança que entra no esporte, é menos um no tráfico”. Hoje, qual é a relevância dessa frase, por que ela é tão importante para as crianças da periferia?

Jubila – Criançada, elas olham muito visualmente, olham muito por exemplos. eu quero ter essa parte, essa diferença na vida delas, de ser um exemplo que dá pra conseguir as coisas por outro caminho. Eu acredito que o poder da fala é muito grande. Tanto de criança que já mandou mensagem e falou: “Mano, eu comecei a treinar porque eu vi sua luta, nossa, achei muito legal você lutando, você falando aquilo”, os pais falando: “Mano, é realidade mesmo”. Eu olhei aqui pro meu bairro, olha pro lado, pro outro, você vai ver é biqueiras, lojas que vendem drogas. E o pai, às vezes, ele quer mentir isso, sabe? Ele quer esquecer, Mas ele cai na realidade e fala: “Não, o moleque falou a verdade o esporte, se ele tem uma chance de eu colocar meu filho numa luta, no jiu-jitsu, um judô da vida, no MMA, e vai influenciar na vida dele, por que não tentar.

Entrevistador (FR) – Porque esse diálogo pós luta é tão importante na imagem do atleta?

Jubila – Porque acaba influenciando, diversas crianças, após assistirem a minha luta e entrevista, quiseram se matricular em escolas de luta, pra mim já me considero com a missão concluída. Colocando mais uma criança no esporte, é menos um no tráfico mesmo, porque na academia de luta, ela vai ganhar disciplina, ela não vai andar com pessoas erradas, não vai ter oportunidade de ser má influenciada. Eu moro no Capão Redondo, a gente sabe a realidade, não tem como a gente ser mentiroso aqui, querer contar a história felizinha, mas ela vai passar reto, ela vai direto pro tatame, pro dojô, e vai seguir o caminho correto, se Deus quiser.

Entrevistador (FR) – por que o seu papel é tão essencial hoje na vida dessas crianças?

Jubila – Como eu disse, a criança aprende muito, por exemplo, se ela fala: “Meu professor faz, eu vou fazer também”. Essa frase de “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” é uma balela, é totalmente errado. Então como professor em si, a gente tem que pensar duas vezes antes de cada ação, um ser humano qualquer da periferia, eu falo muita gíria, é o nosso dialeto. Porém, quando eu estou sendo professor, no dojô, eu fico o máximo polido possível. Eu vou falar o mais o português correto, eu vou evitar falar gírias, sem palavrão, porque a criança vai espelhar naquilo.

Entrevistador (FR) – Qual conselho você daria pro Willians de dez anos atrás? 

Jubila – Falaria pra ele continuar seguindo o que ele está fazendo, falaria: “Negão, só continua, continua com essa crina de cavalo que tem na sua frente, ignora a esquerda, ignora a direita, que tem essa biqueira do lado, ignora o tráfico que tem do lado na sua região, sabe? Continua indo pro caminho do esporte, continua seguindo o caminho dos estudos, que é isso que a sua mãe pregou pra você, é isso que seu pai pregou, e eles sabem o que fazem. Ôss, só prossiga, irmão. Só continua, que seu caminho é glorioso. Ôss.

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