Direitos Humanos
‘Ninguém merece ter uma mãe sem perna’
Atleta paralímpica, Marcela Marques conta trajetória no esporte e como uma fala de um dos filhos a motivou a iniciar sua jornada

Por: Marina Satel Vlatkovic

A participação feminina no esporte paralímpico brasileiro bateu recorde em Paris 2024,
representando mais de 45% da delegação e conquistando 34 das 89 medalhas do país no
evento, segundo o site oficial do Comitê Paralímpico Brasileiro. Porém, a trajetória dessas
mulheres ainda esbarra no machismo e na falta de apoio financeiro. É o que vivencia a
atleta paralímpica Marcela Marques, de 37 anos, que atua nas modalidades de vôlei
sentado, tiro com arco e paracurling. Após sofrer uma amputação em 2022, a mãe de
quatro filhos encontrou no esporte paralímpico uma nova identidade. Sua maior motivação
veio ao saber que um de seus filhos lamentou, para o psicólogo da escola, ter uma mãe
sem perna. “O esporte chegou no momento certo para mostrar que ele pode ter uma mãe
sem perna, que não vai fazer diferença alguma, ela vai lutar”, relembra. Marcela crítica a
carga invisível imposta às mulheres e a dificuldade de enxergarem o esporte como
profissão. Cobrando respeito à igualdade de gênero, a atleta deixa um recado para outras
mulheres com deficiência.

Marcela Marques incentiva a participação das mulheres: ‘Entendam o esporte não somente como algo físico, mas como algo mental e a possibilidade de realizar sonhos’ | Arquivo pessoal

MSV: Como você iniciou a sua trajetória no esporte paralímpico?
Marcela: Em 2022 eu tive a amputação. E através da reabilitação, enquanto estava
aguardando ali para obter a minha prótese, a minha fisioterapeuta perguntou se eu não
queria fazer outra coisa para me distrair. E a gente saindo da pandemia, aí eu falei “vamos
lá, vamos embora”. Eu conheci o Centro Paralímpico no finalzinho de 2022 para 2023,
cheguei no vôlei sentado e foi paixão à primeira vista, ali eu permaneci.

MSV: O que te motivou a começar no esporte?
Marcela: Além de ser atleta, eu sou mãe de quatro filhos. Quando eu amputei a perna, na
escola, meus filhos tiveram que fazer um trabalho psicológico, em uma das sessões, ele
falou para a psicóloga que ninguém merecia ter uma mãe sem perna. Eu falei: “Não, eu
preciso fazer alguma coisa com isso. Não dá para passar despercebido.” O esporte chegou
no momento certo. Para mostrar que ele pode ter uma mãe sem perna, que não vai fazer
diferença alguma, ela vai lutar, ela vai conseguir realizar os sonhos da mesma forma.

MSV: Quais foram os principais desafios enfrentados ao longo da sua carreira?
Marcela: O principal desafio é financeiro. Nós vemos atletas na televisão, competindo e
viajando, e todo mundo pensa que a vida de atleta é uma coisa fácil. Mas, até chegar em
uma paraolimpíadas, até você se consolidar, realmente é muito difícil. Então a parte
financeira, sem dúvida, é uma das piores partes e que a gente tem que rebolar e
fazer 360 para conseguir realizar os sonhos.

MSV: Você acredita que as mulheres enfrentam dificuldades no esporte paralímpico?
Marcela: Muito, em qualquer esporte. Já nascemos com uma carga de trabalho. Então,
quando a gente resolve ir para o esporte, que é um lugar onde ninguém pensa na mulher como um indivíduo, é muito difícil. Ouvir brincadeiras desnecessárias, ter que aguentar tipos de coisas que um homem com certeza não aguentaria. Essa é uma bandeira que eu levo muito, porque a mulher também sonha, a mulher também se realiza e precisa ser feliz. É isso que eu gosto de levar pra todo mundo.

MSV: Como você avalia a representatividade feminina no esporte?
Marcela: Dentro do esporte paralímpico, é uma dificuldade muito grande em obter
mulheres, assim como todos os outros. No esporte paralímpico, dá uma intensificada na
dificuldade, justamente por essa questão dessa carga de trabalho. Então, a maior
dificuldade em obter mulheres é justamente isso, nós não olhamos o esporte como um
profissionalismo, nós olhamos como mais uma tarefa a ser feita.

MSV: O esporte mudou a maneira como você enxerga a sua deficiência?
Marcela: Muito! É surreal como isso acontece. E aquele negócio, você agora não é igual a
todo mundo ali. Então, quando você encontra pessoas que têm a mesma dificuldade que
você, a mesma deficiência que você, é como se você se identificasse novamente. Então, é
de extrema importância, eu falo bastante sobre essa questão de identidade, para se afirmar,
para ter um norte, para se sentir pertencente nas minhas palestras.

MSV: O que você acha que pode ser feito para ampliar a participação e o reconhecimento das mulheres no esporte paralímpico?
Marcela: Primeiro, respeitar o nosso gênero. Respeitar que somos mulheres, que não
somos iguais aos homens, não adianta querer que nós sejamos como eles, porque isso não
vai acontecer, vamos performar do nosso jeito. Se a gente consegue gerir uma casa, filhos,
por que não conseguiríamos gerir uma carreira paralímpica? Então, nós já temos tudo isso
dentro de nós, só precisamos realmente acreditar que isso é possível.

MSV: Se você pudesse conversar com a Marcela que estava começando no esporte, o que você diria pra ela?
Marcela: Eu diria para ela seguir em frente. Siga a sua intuição, é a coisa mais forte que eu
tenho. Então, eu tenho certeza que, seguindo a minha intuição, por mais dificuldades que
sejam, por mais dificuldades que venham, ela vai conseguir, ela vai chegar aonde ela quer.

MSV: Que mensagem você deixaria para outras mulheres com deficiência que têm vontade de praticar esporte?
Marcela: O esporte não é somente algo físico, mas algo mental e uma possibilidade de
realizar sonhos, independente do seu corpo, independente da sua idade. Então, mulheres
que querem entrar no esporte, eu digo: saibam que o esporte também é uma possibilidade
de realizar sonhos, de transformar a sua vida de uma forma que você nunca imaginou. Eu
posso dizer isso de mim, porque nunca tinha saído de São Paulo até então, e hoje eu
consigo rodar o mundo mostrando meu esporte e mostrando que é possível sonhar e que
precisamos sonhar.

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