Comportamento
Tenho, ‘logo existo’: a psicologia por trás da cultura do consumo
Psicóloga Beatriz Andrade fala sobre como a vontade de pertencer leva a medir o próprio valor pelo que se tem

Por: Beatriz Pina

Especialista afirma que o consumo desenfreado reforça a desigualdade econômica social, delimitando grupos a partir do poder aquisitivo | Instagram @biaandradepsi

O consumismo se tornou um estilo de vida e as redes sociais, vitrines. Das compras por impulso aos produtos que se revelam tendências, o hábito de consumir está ligado a temas como exclusão social, comparação e padrão de beleza, baseado na relação com as emoções e experiências vividas por cada pessoa. Para a psicóloga Beatriz Andrade, as pessoas são segregadas a partir do que elas têm. O consumo se mistura com a forma como cada um se vê, com o lugar que ocupa nos grupos e com a maneira de lidar com o que sente. Os efeitos aparecem em várias esferas da vida: na relação com o corpo e com a alimentação, na convivência entre classes sociais, na construção da identidade, hábitos e valores começam a ser formados dentro de casa. “O uso de produtos químicos de adultos em crianças acelera a primeira menarca, que é a primeira menstruação”, reforça a especialista sobre o uso desnecessário do padrão estético imposto na sociedade, que atinge desde a infância. O ato de comprar também mobiliza o cérebro, com mecanismos ligados ao prazer e à motivação.

 

BP: Por que algumas pessoas associam o sucesso àquilo que elas conseguem comprar?

BEATRIZ: As pessoas têm diferentes objetivos e, com toda certeza, estamos sob a influência de várias coisas ao mesmo tempo: redes sociais, governo, cultura, tudo influencia na forma como nós percebemos o mundo. E o consumismo hoje é um modelo que é pautado sobre os negócios do mundo e a forma como a gente vive, é um estilo de vida. Então, ter alguma coisa significa que você tem mais poder de consumo. Isso pode ser um motivador para as pessoas.

BP: De que forma o consumo pode reforçar diferenças de classes?

BEATRIZ: Pode reforçar devido à cultura, porque uns têm menos e outros têm mais. Isso acaba delimitando e fazendo com que as pessoas classifiquem as outras em grupos sociais. Então, quando a gente classifica em grupos, fica mais fácil de entender quem tem o poder aquisitivo maior e quem tem o poder aquisitivo menor.

BP: De que forma o excesso de comparação nas redes sociais pode afetar os casos de transtornos mentais?

BEATRIZ: De diversas formas as redes sociais estão influenciando no comportamento dos indivíduos. O algoritmo é programado para que as pessoas sejam influenciadas e não percebam que estão sendo influenciadas. Inclusive, a sensação de achar que todo mundo tem algo e elas não. Mas muitas vezes é uma comparação injusta. Porque a caminhada do outro pode não necessariamente ser igual à sua ou similar. Isso aumenta os níveis de pensamentos e emoções, como tristeza, de se sentir insuficiente. Aumentando expressivamente os números de casos de depressão, de ansiedade e alguns outros transtornos, como influência no transtorno de personalidade e vários outros transtornos que podem influenciar na forma como a pessoa se comporta e como vê o mundo.

BP: De que forma o padrão de beleza é consumo disfarçado de cuidado?

BEATRIZ: O padrão de beleza, hoje, virou um produto no qual as pessoas vendem que, se você não tiver beleza, você não é significante para a sociedade. Isso diminui, de uma forma muito evidente, o seu valor, o seu nível de autoeficácia. Então, há um ganho secundário em relação a isso. Eles pregam que é para que você tenha um autocuidado, para que você fique mais bonita, quando, na verdade, eles estão tentando somente vender mais um produto.

BP: De que forma isso promove o processo de adultização entre as crianças? 

BEATRIZ: Frequentemente também afeta na saúde delas. Como, por exemplo, utilizar produtos químicos de adultos em crianças, acelerando a primeira menarca, que é a primeira menstruação. Então, esse movimento não afeta somente o psicológico dos adultos, como também afeta o psicológico das crianças e o desenvolvimento físico delas.

BP: Como é possível construir identidade sem consumo?

BEATRIZ: Bom, quando a gente pensa sobre a palavra identidade, isso remete muito à personalidade. Personalidade é algo que é construído durante a vida, no ambiente que a gente vive, com traços do qual a gente já vê inatos, e a genética principalmente. Então, construir uma identidade hoje sem consumismo já é algo natural que ocorre. O importante é discernir o que de fato é o consumismo e o que é de fato a sua identidade, a sua personalidade. O que aparece em evidência hoje em dia é as pessoas não terem o automonitoramento de entender o que é seu e o que é do outro, se fundindo muitas vezes e tendo comportamentos do qual tem a influência do consumismo.

BP: A falta de acesso a determinados produtos no passado pode aumentar o desejo de consumi-los no futuro?

BEATRIZ: Sim, porque a gente tem um estudo dentro da psicologia social falando sobre o gatilho da escassez. Quando a gente tem esses gatilhos de ter a possibilidade de algo que era muito escasso para a gente, ou algo que é muito escasso, cria uma sensação de eu preciso ter, cria uma sensação de eu tenho uma urgência de ter isso agora. 

BP: Porque aquilo que é novo é sempre melhor?

BEATRIZ: Porque o Arthur Schopenhauer, um filósofo muito considerado dentro da psicologia, já falava com uma frase muito inteligente, que é o tédio de ter e a ânsia de possuir. Você não ter alguma coisa representa o desejo da falta, representa aquela angústia de não ter. E quando você tem, representa o tédio, a emoção primária disso, de “agora eu já tenho”, a minha felicidade vai se esvaziando e ela não faz mais sentido. 

BP: Hoje somos mais influenciadas pelo que vemos ou pelo que precisamos?

BEATRIZ: Hoje, eu consigo perceber uma anestesia social, onde as pessoas estão sempre no modo automático. Então, se a gente não consegue gerenciar as nossas emoções, vai ser difícil identificar se a gente está comprando pelo que a gente vê ou pelo que a gente precisa. Então, acho que acontece muito mais um movimento de compramos o que vemos do que necessariamente compramos o que precisamos. Só que a busca e a saída para que isso não aconteça e não ocorra mais com a gente, é monitorar nossos sentimentos, monitorar nossas ações, para que, de certa forma, o que vemos não impacte no que precisamos.

BP: De que forma o prazer de comprar afeta o nosso comportamento?

BEATRIZ: Ele afeta diretamente o nosso sistema neuropsicológico, trabalhando em cima dos hormônios, que são os neurotransmissores. E um deles dá um sistema dopaminérgico, que libera muita dopamina quando a gente compra alguma coisa., traz muita satisfação e  prazer. Quando a gente consome bastante, geramos muita dopamina para o nosso corpo, criando uma certa resistência ao hormônio. E aí ele precisa de mais hormônio para que tenha de novo aquela sensação de prazer. E quando a gente interrompe esse ciclo, o nosso corpo considera e reconhece que as outras coisas não têm tanto prazer quanto a sensação de comprar. E mexe diretamente com a nossa força motivadora.

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