Direitos Humanos
Quem limpa a cidade enquanto você dorme?
Entre os riscos de acidentes e o peso do preconceito social, garis da capital enfrentam jornadas exaustivas para garantir que as ruas não acordem sujas todas as manhãs

Por: Julia Bajak

“Toda fala minha é de que antes de ser diretor, eu sou gari. Para eu estar na diretoria, eu tive que ser gari”. Elmo Nicácio, mais conhecido como “Lagoa”, resume assim sua trajetória como porta-voz na defesa e valorização dos trabalhadores que mantêm a capital paulista em funcionamento. Diretor do SIEMACO-SP, ele une a liderança sindical à vivência de quem um dia esteve na linha de frente da limpeza urbana e reforça: “A população tem que ter consciência de que quem vai coletar lixo não é um robô. É um ser humano, é um pai ou uma mãe de família”. Diariamente, essas equipes enfrentam a dificuldade e os desafios das madrugadas, o risco de acidentes com perfurocortantes, o piso salarial inicial na faixa de R$1.988,30 e o peso da invisibilidade social. Por trás do trabalho feito pelas concessionárias Loga e Ecourbis, a rotina noturna mostra que o cumprimento da NR-38 é a barreira principal para proteger quem limpa as ruas enquanto São Paulo dorme. No entanto, diante da jornada exaustiva e da falta de reconhecimento público, fica a reflexão: até quando a sociedade continuará invisibilizando aqueles sem os quais a cidade simplesmente pararia?

 

Diretor do SIEMACO-SP, Elmo Nicácio, o Lagoa, em seu escritório na capital paulista | Julia Bajak

JB: Como foi para você se tornar diretor do SIEMACO-SP?

Lagoa: A minha vida sindical começou cedo, porque sempre gostei de lutar pelos direitos, desde a juventude. Quando entrei para trabalhar como gari, no primeiro mês já fui eleito cipeiro pelos companheiros. Fiquei uns 10 anos como militante e, em 2004, me tornei diretor do SIEMACO, representando essa categoria que amo de paixão. Não é um trabalho fácil, porque lidar com seres humanos é complexo. Fiscalizo uma unidade na Loga com 3.000 funcionários. Se 95% estão com a gente e 5% falam mal, é normal. Muitas vezes o sindicalista faz o papel de psicólogo, ouvindo desde problemas familiares até questões pessoais, porque o trabalhador só quer ser ouvido. 

JB: E a partir da sua vivência na linha de frente, como é olhar para quem trabalha no período noturno? Há diferença para a coleta diurna? 

Lagoa: De dia a fiscalização é mais em cima e há mais locais para descarga dos caminhões, mas o trânsito é infernal. À noite o trânsito é livre e mais tranquilo, mas é mais perigoso por causa da escuridão em muitas ruas e, muitas vezes, eles não têm onde ficar por estar tudo fechado. São Paulo é atendida por duas concessionárias com números quase iguais de trabalhadores e caminhões. A Ecourbis (Zona Sul e Leste) e a Loga (Zona Norte, Oeste e Centro), onde sou funcionário. 

JB: Com relação à segurança no período noturno, quais são os cuidados e os riscos? 

Lagoa: A roupa com reflexo e sinalização é indispensável. Tivemos o caso recente do Diego, que com dois meses de empresa, mesmo com toda a segurança, perdeu a vida. Isso mostra que a limpeza urbana não é uma ciência exata. Você pode estar super seguro, mas ainda esbarra no fator humano, na falta de gari ou de caminhão, na chuva ou na imprudência de terceiros. 

JB: Vocês encontram muitos acidentes com perfurocortantes, como vidro e seringas? 

Lagoa: O que mais noto hoje são canetas de insulina descartadas de qualquer jeito, sem a tampinha, além de vidros soltos. Para a população evitar isso, a orientação é simples: levar as seringas até a UBS mais próxima, colocar vidros dentro de garrafas PET ou caixinhas de leite e, se possível, entregar direto na mão do gari. Se houvesse essa conscientização, 90% dos afastamentos por cortes de 15 a 30 dias deixariam de existir. A educação ambiental ainda é precária. A população tem que ter consciência de que quem vai coletar lixo não é um robô. É um ser humano, é um pai ou uma mãe de família. 

JB: Você nota situações de preconceito, assédio ou desacato no dia a dia? 

Lagoa: Acontece. Seja no trânsito, com motoristas xingando quando o caminhão bloqueia a passagem, ou em situações mais sutis. Quando eu trabalhava no Morumbi, pedia água e a moradora trazia o copo, mas ao terminar dizia “pode deixar o copo aí”, nitidamente por nojo de pegar de volta. Infelizmente ainda há pessoas que se acham superiores por terem mais condições. Eu faço questão de enfatizar: antes de ser diretor, eu sou gari. Para eu estar aqui, eu tenho que ser gari, para mostrar que o gari é gente. 

JB: Qual é o papel central do sindicato nesse apoio aos trabalhadores? 

Lagoa: O papel principal é dar assistência. Temos 120.000 trabalhadores na base e, só na limpeza urbana, são 20.000 divididos por regiões entre os diretores para darmos uma atenção legal. Contamos também com um departamento jurídico e de apoio robusto para cuidar de casos de assédio ou qualquer outra demanda que chegue até nós.

JB: Para encerrarmos, que recado você deixa para a população? 

Lagoa: O recado é que todos somos iguais, independentemente da profissão ou do dinheiro. A turma da noite limpa a cidade para que os outros possam trafegar em um ambiente limpo no dia seguinte. É um trabalho essencial, mas as pessoas só se lembram da categoria quando há greve ou acúmulo de lixo. Precisamos de mais reconhecimento e respeito.

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