Professora, jornalista e escritora, Rosane que lançou recentemente seu livro “Imaginário Emergentes e Mulheres negras” explicou como as mulheres desde seu nascimento são encaminhadas à seguirem padrões que perpetuam a dominação do homem na sociedade e ensinam as mulheres a se submeterem ao gênero masculino. “Há regras sociais diferentes atribuídas à homens e mulheres em escolas, igrejas, política, instituições, famílias que fazem parte de um processo para definir papéis sociais”. A professora, reforça a importância do feminismo como rota para as mulheres se desvirtuarem dos ensinamentos machistas que aprendem desde a infância “O feminismo é uma forma de reagirmos ao padrão, mulheres não podem ganhar menos que homens, devem ter direitos iguais e não devem ser submetidas à violência psíquica, moral e física como vemos nos casos de feminicídio”. A escritora também pontua a participação dos homens no movimento feminista como necessária para que seja alcançada a igualdade de gênero “É fundamental que ser feminista seja para os homens também, desde o menino que aprende que chorar é bom já está sendo feminista por abrir mão de um privilégio dado pelo patriarcado”.

Professora publicou livro sobre o tema recentemente | Instagram @_rosaneborges
LP: A partir de qual momento da vida a senhora acha que as mulheres começam a ser podadas conforme os padrões sociais?
Rosane Borges: Eu acho que é desde quando se nasce, o patriarcado, o machismo, o sexismo são formas ordenadoras. Então se tem regras sociais, normas, padrões que são atribuídos para as mulheres e para os homens, esse processo começa desde sempre, está na família, nas escolas, igrejas, na religião, política, nas instituições brasileiras, este é um processo que é um de formação de definir o nosso papel social e a gente cresce com a crença de que nós temos que corresponder a esses papéis sociais.
LP: Como a senhora acha que as mulheres podem se livrar desta criação direcionada ao patriarcado depois de mais velhas ou na adolescência?
Rosane Borges: É ouvindo, a Chimamanda Adichie tem um livro: Sejamos Todos Feministas. É sendo feminista. O que é ser feminista? O feminismo é uma forma da gente reagir ao padrão, à subalternidade de gênero, às formas de destituição, à normatização de que mulheres ganham menos, mulher não pode ganhar menos que homem, mulher tem que ter direitos iguais, mulheres não podem sofrer nenhum tipo de violência psíquica, moral, física, olhemos aí o feminicídio. E o que é fundamental: que ser feminista não é só para as mulheres, para os homens também. Porque quando uma criança, um menino, ele é educado e dizem “criança não pode chorar, é a mulher que chora que ela é emotiva”. Então o menino que aprende que chorar é bom, ele está sendo feminista, ele tá abrindo mão de um privilégio do ser macho que diz que homem não chora, que homem não faz isso, que homem não faz aquilo. Então ser feminista também deveria ser um exercício dos homens, e dizer isso não é que o homem vai abrir mão da masculinidade, ele abre mão do privilégio do patriarcado.
LP: De que maneira os homens devem prosseguir para combater esse machismo social para a gente conseguir mudar essa questão do patriarcado?
Rosane Borges: Eu acho que se engajando nessa luta que é protagonizada pelas mulheres, porque se a gente é vítima, a gente protagoniza a luta da denúncia, da reivindicação, das conquistas. E eles se engajarem não é por não é por pena. Eles devem se engajar nessa luta porque homens que se engajam na luta feminista são homens melhores. Todo mundo ganha, por exemplo, creche é uma reivindicação das mulheres feministas. A creche promoveu uma reorganização no âmbito familiar. Quem ganha com a creche? A mãe, o pai, os irmãos, veja: numa sociedade que tem o machismo, que é uma tecnologia de exclusão e de rebaixamento, é um país mais pobre, porque o IDH decai. Então os homens também precisam ter essa consciência de que eles vão estar nos apoiando, vão estar se engajando num projeto que emancipa e melhora todo mundo, todo mundo se torna um ser humano melhor.
LP: Por que muitos homens não entendem essa questão de que todo mundo ganha quando se apoia o feminismo?
Rosane Borges: Porque, como toda forma de tecnologia de dominação, o patriarcado confere privilégios, os homens não querem abrir mão de privilégios. Desde quando nascem, o privilégio que podem namorar com todos, todas, e não são julgados por isso; o privilégio de chegar em casa e não ter um compromisso com o serviço doméstico, muitos sabem que eles vivem sob o império de muitos privilégios. E o que a gente tá dizendo é o seguinte: tem que abrir mão dos privilégios para a gente exercer uma cidadania coletiva, em que os direitos são iguais, em que todo mundo partilha do comum, não pela via do privilégio, mas pela via da cidadania, da igualdade de direitos, do reconhecimento da importância do outro e privilégios para quem domina é muito bom, você não é questionado, você usufrui, então muitos não abrem mão por conta disso.
LP: Por que a senhora acha que atualmente surgiram mulheres lutando contra os próprios direitos?
Rosane Borges: Tem uma filósofa chamada Simone de Beauvoir que ela vai dizer? Que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Como o machismo, e o sexismo são tecnologias de dominação, todas nós, homens e mulheres, nascemos orientadas a executar as regras. A consciência feminista é uma consciência que você adquire ao longo da sua trajetória, agora veja: muitas mulheres não conseguiram adquirir essa consciência. O machismo existe porque as mulheres educam os filhos para serem machistas. Tá bom, elas não são culpadas, elas são vítimas, mas é verdade. Porque o dominado ele acaba reproduzindo a lógica do dominador. Isso se dá com machismo, racismo, com qualquer outro tipo de movimento de dominação, agora, cabe a nós tomarmos consciência do que é ser mulher e começar a perceber, assim a mulher muda de consciência, porque se não, ela vai executar as tarefas e viver no mundo repetindo a ideologia machista. Então quando a gente vê hoje, a ascensão de uma extrema-direita que acaba validando e insuflando esse tipo de coisa. Nós temos muitas mulheres que reproduzem a ideologia machista porque elas só nasceram mulheres, elas não se tornaram mulheres como diz a Simone de Beauvoir.
LP: Por que o feminismo não consegue se comunicar com essas mulheres?
Rosane Borges: É uma tecnologia de dominação, eu nasci e minha mãe era feminista ao modo dela, mas eu nasci no meio de uma lógica machista. Então quando você tem uma contranarrativa, um contramovimento, sempre é muito mais difícil porque o machismo tá na televisão, tá nas redes sociais, tá no celular. Eu acho que do nosso lado a gente sempre tem que fazer uma avaliação crítica; como a gente não chegou? Mas a gente tem também que levar em conta que a tecnologia da dominação machista é uma tecnologia milenar, que está aí há muito tempo. Então a gente luta, a gente vai conversar com mulheres: “não, não quero ser feminista”, como se fosse um problema, então a gente tem de um lado uma tecnologia de dominação que é milenar, de outro um movimento que é relativamente recente, que tem falhas de estratégia, em alguns momentos, mas que nada contra a maré.
A gente tá chegando muito em determinados setores, Pierre Bourdieu, Eric Hobsbawm, historiadores, sociólogos, homens, eles costumavam dizer: é o movimento mais vitorioso do século XX. Mudou o cenário, a cena, as relações familiares, as relações amorosas, a subjetividade. Então, a despeito de toda uma carga negativa que ainda paira sobre o movimento feminista, nós conquistamos muita coisa ao longo da história, mesmo na contramão.
LP: Para o feminismo conseguir debater com essas mulheres e também acolhê-las, quais seriam os métodos mais eficazes que poderiam ser utilizados para combater essas imposições do patriarcado?
Rosane Borges: Eu acho que é expandir um conjunto de estratégias que já está em curso: a conversa olho no olho, no bairro, monta reuniõezinhas, associações comunitárias; se é na igreja, tenta conversar com as mulheres; porque muita gente reduz o feminismo apenas a uma causa, que já é uma causa nobre, a causa dos direitos sexuais e reprodutivos, da liberdade sexual, que é fundamental, mas o feminismo está quando você fala em creche para uma mulher, que toda mulher precisa de creche, uma mulher pobre principalmente; é dizer “isso é uma luta feminista”. Como que a gente pode expandir? Como a senhora ou você pode ser um agente importante para manter creche na sua escola? Como pensar a divisão do trabalho dentro de casa, como é que vocês dividem as tarefas? Então é sobre conversar sobre o dia a dia, o que as mulheres passam, sentem, e é uma conversa corpo a corpo, uma conversa de levar as pessoas a refletir sobre suas vidas e elas entenderem que o que elas passam é porque elas são mulheres. Tem coisa que a gente não sabe que é porque a gente é mulher. E não é preciso um discurso acadêmico, difícil, político no sentido estrito do termo, mas você vai levando as pessoas a ter uma consciência de que o que elas estão passando é porque elas são mulheres.
LP: E essa questão, muitas pessoas atacam como se fosse “lacração”. Como é que o movimento feminista poderia se dissociar desse rótulo?
Rosane Borges: Isso eu acho que é inevitável, que está no campo das disputas narrativas quando a gente fala de rede social. Tem exageros em todo movimento? Tem, porque nós somos seres humanos. Tem lacradoras, tem lacração no espaço das religiões, tem lacração no campo político. Eu acho que o que a gente precisa muito é não desvirtuar a mensagem que a gente quer passar, cada uma tem uma forma, não tem um método exclusivo. Se eu estou nas redes, eu tenho que sempre ter um discurso voltado para a emancipação feminina, para a reflexão, para a transformação, para as conquistas, para melhores condições de vida, de trabalho, de salário. Então é isso que deve ser o nosso compromisso. Mas o “como” não pode ser um “como” fora da ética, fora dos acordos civilizatórios, fora da ética do bem dizer, mas o “como” é diverso, aquela coisa, coloca a sua cara no sol da forma que sabe fazer, da forma mais adequada, e tá valendo, porque nós como seres humanos nós somos heterogêneos, as mulheres são heterogêneas. Então a juventude, quem é nativo digital já vai ter uma forma de falar na rede, nós, as mais antigas, vamos ter outra forma; tem gente que nem tá na rede, tem gente que tá fazendo por outros caminhos. Então eu acho que todas as formas são válidas desde que não transgridem, não traiam com o princípio da emancipação feminina.
LP: Quais interferências do patriarcado a senhora teve de enfrentar para construir sua carreira profissional?
Rosane Borges: Várias, Desde diferença de salário no meu primeiro emprego, que foi em São Luís do Maranhão, numa assessoria de imprensa; desde a não consideração que eu sou uma voz que pensa e portanto que fala. Tem sempre homem querendo te explicar, te dizer, interromper a sua fala. E do não reconhecimento do nosso papel de intelectual, de pensadora, de pesquisadora, a partir de um olhar, e um olhar que vem com a questão de gênero e de raça. Além de ser mulher, eu sou uma mulher negra. Então, são vários os episódios, e a gente sabe por que existe, é porque nós somos mulheres e somos mulheres negras.
LP: No jornalismo para a senhora ainda há bastante imposição do patriarcado que impeça as mulheres de fazer o seu trabalho?
Rosane Borges: Sim, mudou muito, conquistamos muito, mas estamos longe do ideal. À medida que no jornalismo vai crescendo as posições de mando, quem manda, ela vai ficando masculina e embranquecida. Então ainda é um problema, porque você ainda tem no jornalismo, na cadeia produtiva, na cadeia profissional do jornalismo, as hierarquias de gênero e de raça. Mudou? Mudou. Temos diferenças hoje? Temos, mas persiste ainda um predomínio masculino. Então, claro, se veio de ambientes muito hostis, muito difíceis, estamos em ambientes melhores, mas ainda com muitas dificuldades em termos salariais, em termos de validação dessas mulheres, da respeitabilidade etc.
LP: Como o movimento redpill conseguiu adaptar ideias consideradas do passado para os dias atuais?
Rosane Borges: Como eu falei, o patriarcado, o sexismo, machismo, são tecnologias de dominação milenares. E do ponto de vista do imaginário, tem uma frase que até coloco no meu livro: “imaginário é sempre aquele que nos governa, o mais antigo que nos governa sujeito a novas racionalidades”. E quando a gente decreta a morte do mais antigo? É com novas narrativas. A gente construiu novas narrativas sim, mas o mais antigo tá aqui. E como ele é o mais antigo e está sedimentado na sociedade, em momentos de crise você vai como se fosse uma cartola e ele faz sentido. Então são ideias arcaicas, mas que fazem sentido porque essas ideias, mesmo a gente dizendo “estamos em pleno século XXI”, elas ainda fazem sentido para muita gente. Então a gente tem uma juventude, principalmente masculina, aí no resgatar dessas ideias, porque eu atribuo: homens, vocês são perdedores. Em que sentido? As mulheres ascenderam muito do ponto de vista, estudam mais, ainda que o poder e o dinheiro estejam na mão de vocês. Os homens sentem esse avanço das mulheres, mas ainda possuem o poder de dominação, então eles matam, eles tentam dizer que nós não somos ninguém, entram nessas reuniões de redpill para ensinar como tratar as meninas. Porque analisando o perfil desses jovens, eles se sentem rejeitados “não consigo paquerar, ninguém me quer, elas não me querem” ao invés de se perguntarem o que há de errado neles, se cria um ódio contra as mulheres e não aceitam a rejeição. Então, o redpill é uma reação ao fracasso de uma masculinidade e é a face mais aberrante de homens que alimentam e colocam em prática essa subalternidade.
LP: Com a polarização política, tivémos figuras da extrema direita criando um novo conceito para a palavra “feminina”, mas eu queria saber o que é ser feminina para você?
Rosane Borges: Pra mim é o que nós somos. Todo mundo acha que uma mulher feminista não é feminina, porque ela é raivosa. Não. O que é ser feminino, como é o que é o masculino, a masculinidade? São forças, são lugares sociais que a gente ocupa, que não tá ditado pela biologia, e é um gesto, é uma performance da gente se pôr no mundo. Porque quando a gente diz: é preciso acabar com o machismo, não é com a masculinidade. Nós precisamos da masculinidade com a gente. O feminino seria também uma, um lugar social importante, que representa a fertilidade, que representa eu uma complementaridade. O masculino é outra complementaridade, são forças sociais que ocupam papéis fundamentais. Agora, esses papéis, é isso que o feminismo vai dizer. A gente ocupa papéis sociais, mas a diferença não pode marcar desigualdades. São diferenças? São. Masculinidade, feminilidade. Mas essas diferenças, eu diria, o que é o feminino? É a diferença no jogo, no teatro da vida. O que é a masculinidade? Também é diferença. Agora, o que a gente não quer é que essa diferença marque desigualdades. Pode-se dizer, assim, que esse novo conceito de, de mulher feminina seria um, um conceito criado para se decimar, para se dissipar pela sociedade, para enfraquecer a mulher? Sim, é pra, é isso, pra fazer um contraponto. Dizer: “A gente não é feminista, a gente é feminina”. Agora, o que é ser feminino? E esse lugar é um lugar muito perigoso, porque o feminino ele não é algo imperturbável biologicamente falando. Ele é uma construção social, não é? Então quando elas tão dizendo que elas são femininas, porque elas são delicadas, elas pintam unha, não é isso que é ser feminino. Feminino é uma diferença, é um lugar, é uma força. Então claro que é uma forma de tentar atacar o movimento feminista e dizer: “Não, eu não sou feminista, eu sou feminina”.