Política
‘Jornalismo tem de revelar coisas’, afirma André Shalders sobre investigação
Formado pela UnB e mestre pela IE University de Madri, premiado por reportagens investigativas, fala sobre apuração, proteção de fontes e os desafios da profissão.

Por: John Vítor

André Shalders, jornalista investigativo, mestre pela IE University de Madri e repórter do Metrópoles.

André Shalders jornalista do Metrópoles | Arquivo Pessoal


Investigar vai muito além de publicar denúncias. Encontrar documentos, confirmar informações, proteger fontes e lidar com pressões fazem parte da rotina de quem trabalha com jornalismo investigativo. André Shalders conhece esses desafios de perto. Jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), em 2013, e mestre pela IE University de Madri, em 2023, ele é especialista na área e já recebeu prêmios como o CNT, o IREE e o Trace Prize for Investigative Reporting. Antes de chegar ao Metrópoles, passou pelas redações do UOL, Poder360, BBC News Brasil e Estadão. Nesta entrevista, fala sobre os bastidores da profissão, os obstáculos da apuração e a importância de produzir reportagens de interesse público. Para André Shalders, o jornalismo investigativo exige rigor, persistência e responsabilidade com as informações publicadas. Em meio à pressão por velocidade, aos riscos jurídicos e aos desafios de proteger fontes, o compromisso com a apuração continua sendo essencial. Para quem deseja seguir esse caminho, o conselho é direto: ler boas reportagens, entender como foram construídas, acompanhar o noticiário e buscar experiência nas redações. Mais do que produzir denúncias de grande repercussão, o objetivo deve ser encontrar fatos relevantes e contribuir para que a sociedade compreenda melhor aquilo que acontece ao seu redor.

JV: O que despertou o seu interesse pelo jornalismo investigativo?

AS: Eu não gosto muito dessa nomenclatura de jornalismo investigativo, porque acho que todo jornalismo tem que ser investigativo em algum grau. Se você está só reportando algo que está acontecendo, como cobrindo uma coletiva de imprensa, está gerando informação e revelando algo novo. Mas o jornalismo investigativo se destina a revelar coisas. Com o tempo de profissão, fui percebendo que era isso que eu mais gostava de fazer. Só fazer aquilo que todo mundo já está fazendo não tem graça nenhuma. O que eu gosto mesmo é de descobrir coisas que eu possa cravar, fatos concretos que podem ser checados. Acho que isso ajuda mais a entender a realidade.

JV: Quais são as maiores dificuldades para encontrar documentos e chegar aos dados utilizados em uma investigação?

AS: Existem dois tipos de documentos: públicos e sigilosos. Os dois são importantes e ajudam a contar a história. Você precisa dar dados e fatos concretos sobre aquilo que está contando. Para isso, precisa ir atrás dos documentos. Se você fica no achismo, não precisa de documento. Existem várias plataformas para levantar informações, como o Portal da Transparência, relatórios da CGU, Siga Brasil, processos judiciais que não são sigilosos, documentos de cartório e de junta comercial. Tudo isso está na internet. É só saber pegar. Eu acho até melhor quando você consegue fazer uma reportagem só com informação pública, porque qualquer pessoa pode conferir. Documento sigiloso é diferente, porque alguém precisa passar aquilo para você. Às vezes, dá para verificar a procedência; em outros casos, você precisa confiar um pouco na fonte e ouvir o outro lado.

JV: Quais são os maiores desafios e riscos de fazer jornalismo investigativo?

AS: O principal risco, de verdade, é o jurídico. As pessoas vão processar. Eu já tomei vários processos por causa do meu trabalho em Brasília. Nunca perdi nenhum, mas já fui processado várias vezes. Você tem que estar bem calçado, bem amparado. Não pode imputar crimes falsamente às pessoas. Se você afirma alguma coisa, precisa ter um documento para provar, precisa estar embasado. Então, é preciso ser cauteloso. Não pode vacilar.

JV: Como você lida com a pressão de ter uma informação exclusiva e precisar publicá-la antes dos concorrentes?

AS: Algumas coisas do jornalismo investigativo são boas porque você não está concorrendo com ninguém. Se ninguém tem aquela informação, só você tem. Em outras situações, você precisa correr mesmo. Quando vários jornalistas passam a ter acesso aos mesmos documentos, tem que fazer rápido. Existem técnicas para agilizar, como usar ferramentas de inteligência artificial para resumir documentos e procurar palavras-chave. Mas isso já é mais hard news. Aí é cada um por si, meu amigo.

JV: No caso do Banco Master, com a quebra de vários sigilos, qual foi o principal desafio da apuração?

AS: O maior desafio foi o volume muito grande de coisas. Você precisa separar o joio do trigo, e isso dá trabalho. Como os documentos passaram a ser acessíveis para todo mundo, você precisa correr muito, porque, se demorar, alguém publica antes. Mas não foi a cobertura mais difícil que já fiz. É uma situação em que você precisa fazer rápido, mas não considero particularmente difícil.

JV: Que tipo de cuidado o jornalista precisa ter com as fontes para garantir o sigilo delas?

AS: A mais importante é não usar os canais normais de comunicação. Você não vai usar e-mail normal para tudo, por exemplo, e não pode ficar falando abertamente no WhatsApp sobre determinados assuntos. Também tem que evitar a chamada identificação cruzada, quando você coloca na reportagem algum elemento que só aquela pessoa sabia e, para quem está acompanhando o caso, fica evidente que foi ela quem vazou a informação. É preciso ter toda uma engenharia para não expor a fonte. O segredo da fonte é garantido pela Constituição.

JV: Você já sofreu pressão externa para não publicar alguma matéria?

AS: Claro. Impressiona, mas acontece. Você liga para pedir o outro lado e a pessoa liga para o seu chefe. Isso é normal. Acontece o tempo todo.

JV: Como você lida com a pressão e com o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal?

AS: Hoje melhorou muito. Na geração dos nossos chefes, era mal visto você trabalhar menos de dez horas por dia. Eles realmente valorizavam essa ideia do sacrifício pessoal. Hoje já não é tanto assim, embora ainda dependa do lugar onde você trabalha. Mas existe pressão. Tem gente reclamando, tem colegas dentro da redação que vão te julgar, dizer que você está ajudando A ou B. Você tem que ser malandro e saber se movimentar. Tem que fazer as coisas direito, combinar antes e estar muito atento. Quando você tem muita gente querendo te atacar, qualquer erro pode ser usado contra você.

JV: O que, na sua visão, define o sucesso no jornalismo investigativo? É uma grande matéria ou um trabalho de formiguinha?

AS: Você tem que ir atrás de coisas importantes, de coisas relevantes. Se começar a fazer muita matéria que você mesmo percebe que é irrelevante, está no caminho errado. Você precisa buscar coisas que sejam importantes para muita gente, que tenham interesse público. Para mim, esse é o caminho para o sucesso: esse binômio entre interesse público e relevância.

JV: Hoje, qual é a maior dificuldade enfrentada pelo jornalismo investigativo brasileiro?

AS: Eu diria que é a questão judicial. Eu já tive ameaça, já houve exposição nas redes sociais, já teve linchamento virtual. Mas o que acontece com muito mais frequência é processo judicial. Se você não tiver uma boa estrutura jurídica na empresa em que trabalha, advogado para te defender e dinheiro para arcar com eventuais custos, fica muito difícil fazer jornalismo investigativo. Por isso, é uma atividade muito ligada aos veículos grandes. Você precisa ter dinheiro para suportar os custos e os riscos jurídicos desse trabalho.

JV: Com o crescimento das redes sociais e da desinformação, você acha que o jornalismo investigativo ganhou mais importância?

AS: Eu diria que sim. O jornalismo, como um todo, é importante nessa época, porque é importante que o brasileiro possa receber uma cobertura crítica do governo, receber informações sobre o poder e saber o que aconteceu. Se você pensar que existem várias cidades onde ninguém está cobrindo nada, o político pode fazer o que quiser. Se não existe imprensa acompanhando, não existe ninguém fiscalizando. Então, é muito importante ter jornalismo nesses lugares.

JV: Que conselho você daria para estudantes que desejam seguir a carreira do jornalismo investigativo?

AS: Tem que ler reportagem. Não tem jeito. No jornalismo é a mesma coisa que na pintura: você precisa observar o trabalho de quem já faz isso. Se você gosta da área, tem que se expor àquilo. Leia os grandes repórteres e tente entender como eles escrevem. Como a pessoa chegou naquela informação? Como ela tem certeza do que está falando? Que tipo de fonte passa aquela informação? Como ela conseguiu aquele dado? Tente fazer uma espécie de engenharia reversa da reportagem. Tem que estudar os métodos, entender as ferramentas que você vai usar e desenvolver repertório, mesmo que você discorde politicamente dos repórteres. Eu recomendaria também assinar um jornal e ler todo dia. Jornalista tem que ler jornal. Você precisa ficar fluente na linguagem do jornalismo. Para jornalismo investigativo especificamente, eu recomendaria começar a aplicar para estágios em redação. É importante colocar o pé na porta e começar a fazer. Você vai fazendo, fazendo, até que as coisas começam a funcionar. Não é rápido e não é tranquilo, mas é gratificante. Tem que ir atrás de coisas relevantes, de coisas que tenham interesse público. Esse é o caminho.

 

 

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