Por meio do núcleo de Serviço Social, a Biblioteca São Paulo (BSP) acompanha os jovens e crianças em situação de vulnerabilidade que frequentam o espaço e buscam compreender suas necessidades, quando a equipe identifica situações ultrapassam o uso habitual, como dificuldades de socialização, falta de acompanhamento familiar e sinais de que a criança está desassistida. Assim, o núcleo procura garantir que o acesso ao espaço de cultura e convivência também aconteça de maneira segura e acolhedora. O espaço existe desde 2010 no Parque da Juventude, na Zona Norte de São Paulo, localizado no terreno onde funcionava a antiga Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, e busca conciliar o acesso livre à cultura, à tecnologia e às atividades oferecidas pela biblioteca com orientações relacionadas à segurança e à socialização. São com projetos como o Clubinho de Leitura, rodas de conversa e brincadeiras em grupo que o núcleo age para aproximar essas crianças da biblioteca e favorecer a interação entre elas. Entre as questões levantadas durante a conversa com a assistente social Paula Simplício, que há 14 anos atua nessa área da SP Leituras, órgão que organiza a BSP, estão a dificuldade de socialização, a relação com os pais e responsáveis e aspectos que vão além do ambiente da biblioteca, como escola, saúde e outras necessidades sociais.

Roda de leitura com crianças na BSP | Instagram @bspbiblioteca
JDA: Há algum projeto social voltado para crianças de rua?
Paula: O que a gente procura é sentar, fazer algumas conversas, trabalhar com esses diferentes públicos que nós atendemos. Então, a gente tem alguns trabalhos da própria equipe de atendimento para focar em atividades específicas para determinados grupos. A biblioteca hoje tem um serviço social dentro dela, mas eu não faço um trabalho de campo. Eu não saio para ir fazer visitas domiciliares para realmente chegar um pouquinho mais próximo da vivência dessas crianças. Te confesso que a luta é grande da gente conseguir uma resposta referente a isso. Porque é a educação que não dá a resposta, é o conselho tutelar que também não dá o retorno, e não temos total conhecimento de quem é a família dessas crianças. Os nossos projetos são baseados com relação ao nosso trabalho de incentivo à literatura, à leitura, focado para a idade dos pequenos, e o serviço social entra nessa questão de mediar situações quando a gente vê que sai da normalidade. Quando não está normal, a criança está desassistida de verdade, a criança está vindo muito suja, a criança está ficando muito tempo dentro do espaço sem frequentar a escola, aí é onde eu entro. Nesse sentido de tentar acionar a rede para ver o que se pode fazer com relação a isso. Não dá para fechar os olhos só porque é uma biblioteca.
JDA: A biblioteca é um espaço de interação para essas crianças nessa condição de social?
Paula: Essas atividades que a gente vai proporcionando para as crianças, e também encontros só de conversa, vem ajudando, auxiliando bastante com relação aos comportamentos, que a gente tem muitas crianças que dão trabalho, não conseguem se comportar, xingar, querer bater um no outro, ou ofender até os funcionários. Então, essas interações abrem espaço para a gente também poder conseguir um bom diálogo com eles. Apesar da gente saber que são crianças que entram, fazem muita bagunça, que acabam não tendo respeito, a gente sabe que ali também falta muito, faltou acolhimento, faltou amor, faltou carinho, na melhor fase, porque a gente fala que a melhor fase é a infância, só que a deles a gente sabe que essa fase pula, acaba pulando e quando você vai ver eles já estão bem avançados, poucos tiveram, souberam mesmo o que é ser criança. Então, eu acho que esse acolhimento, esse espaço faz o diferencial.
JDA: Vocês enxergam mudança, é gratificante para a equipe?
Paula: Nossa, é muito mesmo. E eu confesso que eu tive que fazer um trabalho também com os funcionários, porque a gente teve muitos funcionários, na questão do julgamento mesmo. “Para de passar a mão na cabeça, esse daí não quer saber de nada…” E aí a gente vai tentando fazer todo aquele trabalho de convencimento mesmo, no sentido de, olha, existe tanta coisa por trás disso, por trás dessa revolta. É um problema nosso, de todos nós. Eles são crianças ainda, então, é um problema nosso, é um problema social também. Mas no final das contas, você depois vê que aquele que era marrudo, que chegava aqui todo emburrado, hoje interage, hoje se socializa, conversa, participa das atividades. Eu acho que isso é muito significante para toda a equipe.