Direitos Humanos
‘Eu quero assistir à aula como qualquer outro aluno, é meu direito’
Psicóloga e assessora midiática, Elaine Peixoto descreve vivências como uma pessoa que tem baixa visão e realça ignorância social

Por: Isabela Ramos

A deficiência visual não se resume à cegueira total. Entre suas diferentes manifestações, a baixa visão ainda é pouco conhecida e compreendida socialmente. Por nem sempre ser perceptível, essa condição pode passar despercebida por quem está ao redor, embora imponha desafios à realização de atividades cotidianas e às interações sociais. Elaine Cristina Andreotti Peixoto, 45 anos, assessora de comunicação e psicóloga clínica, vive essa realidade diariamente. Para explicar como enxerga, ela compara a visão à de alguém que olha através de um tubo. “Imagina que a pessoa estivesse com um tubo de uns dois centímetros na frente dos olhos e enxergasse através dele”. Segundo Elaine, a visão ainda apresenta pontos escuros, outros brilhantes e uma imagem nublada. A falta de conhecimento sobre a condição pode gerar situações constrangedoras. “Muita gente não sabe [da baixa visão]. A pessoa estica a mão, você não vê. E elas me acham antipática”, relata. Em 2024, a Lei nº 14.951 também passou a estabelecer a bengala longa verde como forma de identificação das pessoas com baixa visão. Durante a conversa, Elaine contou sobre acessibilidade, preconceito e as dificuldades enfrentadas no cotidiano.

‘O médico examinou meu fundo de olho e diagnosticou Retinose Pigmentar. Foi impactante’ | Arquivo pessoal

IR: Como você descreve a sua visão para alguém que nunca ouviu falar sobre a baixa visão?
Elaine: É como se a pessoa olhasse através de um tubo de uns dois centímetros na frente dos olhos, mantendo apenas resquícios de periferia. Nesse espaço reduzido, vejo vários pontos escuros (pontos cegos) e alguns brilhantes que ficam piscando. A imagem do que consigo visualizar é sempre anuviada e nublada.

IR: E como foi a sua jornada até entender o seu diagnóstico?
Elaine: Recebi o diagnóstico aos 28 anos numa consulta de rotina. Ao relatar dificuldade para achar objetos que caíam no chão e para ver pessoas se aproximando à noite, o médico examinou meu fundo de olho e diagnosticou Retinose Pigmentar. Foi impactante. Ele me informou, com tristeza, que não havia cura nem cirurgia e me encaminhou para uma retinóloga que a avaliou a piora do quadro em 10 anos, e até lá já haveria tratamentos. Porém, no 10º ano veio a pandemia, as pesquisas estagnaram e perderam incentivo, foi quando eu perdi significativamente a visão. Tive que parar de dirigir gradativamente e hoje dependo de acompanhantes para sair em público.

IR: Com o seu diagnóstico, você considera que ele veio acompanhado de orientação adequada sobre reabilitação e recursos assistivos, ou teve que descobrir seus direitos por conta própria?
Elaine: Eu mesma fui atrás. Descobri associações locais, mas elas focavam em Braille, o que não quero aprender , pois prefiro me adaptar via tecnologia e computador . Na faculdade me ensinaram a usar bengala, mas ainda não a aceito no meu processo pessoal. Primeiro vem a aceitação, depois a prática.

IR: Como o mito de que a deficiência visual se limita apenas à falta completa da visão afeta a sua rotina e a forma como as pessoas interagem com você?
Elaine: Minha rotina hoje é focada em casa, trabalhando em home office e atendendo pacientes online. Quando saio, uso carro por aplicativo. Como já fui professora e conheço muita gente, imagino que muitas pessoas me acham antipática por não as cumprimentar , já que minha deficiência não é aparente. Em eventos sociais, preciso que sirvam meu prato e cortem minha comida, o que é constrangedor. Em casa, utilizo a regra do relógio para me orientar com o prato ou como da forma que me sinto mais confortável.

IR: Por ter alguma capacidade visual, você já passou por situações em que questionaram sua deficiência ao usar guichês prioritários ou assentos reservados?
Elaine: Questionamentos diretos não, até porque minha cidade é pequena e evito transporte público. Tive apenas um incidente com uma mãe de autista numa fila preferencial e uma recusa de prioridade num posto de saúde. Além disso, percebo surpresa em familiares e ex-colegas quando percebem que ainda enxergo alguma coisa.

IR: Qual seria a barreira tecnológica ou digital mais frustrante que você enfrenta no dia a dia?
Elaine: A maior frustração é quando aplicativos e sites não possuem a opção de modo noturno/fundo escuro (como o app do Banco Votorantim e trechos do gov.br). Isso me obriga a dar zoom exagerado para copiar códigos de barras ou solicitar ajuda de terceiros. Quem tem resquício visual sofre com imagens e figurinhas sem contraste. Para leitura de livros, utilizo o aplicativo @VoiceReader, que lê os PDFs em voz alta.

IR: No seu ambiente de trabalho e de estudo, já enfrentou dificuldades para ter acesso a adaptações simples, como ampliação de fonte, softwares de apoio ou iluminação adequada?
Elaine: No trabalho, o suporte é excelente e o setor de TI sempre me auxilia. Porém, na graduação e na pós-graduação, enfrentei dificuldades com a falta de acessibilidade e a adaptação dos materiais. Um professor se recusou a enviar os slides antecipadamente, alegando que isso comprometeria suas aulas. Na pós-graduação, mesmo após reuniões com a coordenação, as adaptações prometidas não foram realizadas. Precisei cobrar repetidamente meus direitos e ameaçar recorrer à Justiça. Quando me ofereceram aulas extras como solução, fui enfática: “Eu não quero aula extra. Eu quero assistir à aula como qualquer outro aluno. É meu direito.”

IR: As informações sobre os direitos garantidos por lei às pessoas com baixa visão, especialmente em relação aos direitos trabalhistas e às cotas, você acredita que são de fácil acesso?
Elaine: Não são de fácil acesso. Há muita desinformação e burocracia. No INSS, por exemplo, a própria funcionária tentou confundir minha solicitação de aposentadoria especial de PcD por tempo de contribuição com aposentadoria por invalidez. Se eu não estivesse muito bem informada e orientada por um advogado especializado, teria tido meu pedido indevidamente indeferido. Quando buscamos nossos direitos, precisamos estar extremamente preparados para não sermos enganados.

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