Educação
´Uma pessoa com dislexia precisa aprender a aprender´
Professora do Ensino Médio conta como atravessou diferentes etapas da educação e chegou a sala de aula

Por: Isabelly Soares

Alice de Souza mostra que a escola também um espaço de aprendizado e superação para quem ensina | Isabelly Soares

Estima-se que 5% a 10% da população mundial tenha dislexia, de acordo com a Associação Brasileira de Dislexia. Há mais de 30 anos, Alice de Souza dá aulas de matemática e já ensinou diferentes gerações de alunos. Por trás da professora que ensina números, fórmulas e cálculos, existe uma história marcada pela dislexia e pelos desafios que ela enfrentou durante sua vida acadêmica e profissional. Essa experiência também fez parte da forma de ensinar e de entender as dificuldades dos alunos. “Quando se tem dislexia, você tem sim uma série de dificuldades, mas não significa ‘não vou aprender’. O disléxico precisa aprender a aprender.” Em entrevista, Alice conta como foi descobrir a doença, os desafios que enfrentou ao longo da vida e como aprendeu a lidar com eles.

IS: Alice, quando você percebeu que tinha dificuldades diferentes das outras crianças na escola? Houve alguma situação específica que você percebeu que era diferente?

Alice: Sim. Na minha época, quem tinha algum problema, ia para uma sala especial. Então me colocaram nessa sala especial. Por quê?  Eu não escrevia, mas eu interpretava tudo e fazia tudo na cabeça, não na escrita. Por isso que eu fui para essa sala especial. Chegando nessa sala especial, tinha de tudo. Hoje eu penso que tinha um aluno autismo, um com TDAH, um disléxico… e aí eu ajudava as crianças a fazerem as coisas, porque eles escreviam, e eu não escrevia. Essa foi a grande questão.

IS: E você se lembra de alguma situação específica que tenha marcado você, então, talvez algum momento dentro de sala de aula ou numa prova?

Alice: Para que eu fosse para essa sala, uma professora falou para a minha mãe que eu já tinha aprendido as quatro operações, que estava ótimo, que já dava para trabalhar em armazém na época. E eu fiquei muito magoada com isso. Porque eu falava assim: “Não, mas eu quero ser professora”, porque o meu sonho sempre foi ser professora.

IS: E por que o seu sonho sempre foi ser professora?

Alice: Ah, porque eu gostava de ver as pessoas começando a aprender. Eu sempre tive essa coisa gostosa de falar: “Poxa, você mostrou que um mais um deu dois, mas por quê?”. Eu sempre gostei de brincar. Eu acho que a educação teria que ser muito mais brincadeira do que o que é pesado hoje. Infelizmente a nossa educação não nos leva a isso, né? É uma questão de educação mesmo, nós não fomos educados para isso. Mas seria uma maravilha se fosse.

IS: Em algum momento, você sentiu que não era capaz de aprender igual aos outros alunos? Você sentiu que ficou para trás?

Alice: Sim. Porque até o quarto ano eu fiquei nessa sala especial, e, nossa, eu não gostava de ficar lá, porque eu queria estar lá junto com a turma. Primeiro que eu fui para as Olimpíadas de matemática e ganhei. Era bem simples na escola que eu estudava. E as professoras ficavam falando: “Quando for para o quinto ano, é melhor a mãe rever pra ela não estudar mais”. Tudo porque eu não fazia anotações.

IS: E como foi para você receber a informação que você realmente tinha dislexia? 

Alice: Minha mãe falava assim: “Você vai trabalhar em banco, filha”. Mas eu não queria trabalhar em banco, eu queria trabalhar dando aula. Uma professora chamada Maria Lúcia, falou para mim assim: “Alice, você já foi ver que você tem dislexia?”. Eu falei assim: “Não”. Ela falou: “Você tem dislexia. Eu não vou bater o martelo, mas você tem dislexia”. 

IS: E a sua experiência tendo dislexia influenciou na forma como você ensinou e ensina aos seus alunos até hoje?

Alice: Com certeza. Principalmente porque eu fiz o meu tratamento quando eu tinha 19 anos. E aí você já perdeu tanto, já chamaram você de tanta coisa, “Menina estranha”, por exemplo. Quer dizer, não precisava passar por isso. Quando eu tenho uma criança disléxica em sala de aula, eu falo: dislexia, você tem sim uma série de dificuldades, mas não significa “não vou aprender”. Uma pessoa como eu precisa aprender a aprender .Escutei de uma professora de matemática que eu não ia aprender matemática, e eu sei que eu sou boa naquilo que eu faço.

IS: E se você pudesse conversar com a menina que você era na escola, com todas as coisas que você escutou e tudo o que você passou até hoje, o que você daria de dica ou conselho para ela?

Alice: Ah, eu falaria: “Alice, você venceu, mas olha, não desanime, porque a coisa não é brincadeira”. Porque assim, tudo é uma questão de época. Se você pensar nos professores antigamente, eu não os culpo. Não se falava de dislexia, TDAH, autismo. Falavam que era “doente mental”. Não que nós tenhamos preparo também, mas  eu estou na pele de um disléxico e se torna um olhar diferente. Mas quem não é disléxico não consegue entender o que nós passamos. Por isso que eu falo: juntar jogos e a matemática faz com que essa matéria não seja uma dificuldade na vida dos alunos, e essa é minha defesa, e vai ser para a vida inteira. O jogar faz com que eu aprenda muito mais do que a escrita. Hoje o meu orgulho é olhar para um livro e falar: “Poxa, eu sei isso. Eu aprendi”. Mas eu diria para ela assim: “Seja persistente, porque a coisa não é fácil”.

IS: E para quem vai ler essa matéria, que vai saber como foi a sua experiência sendo professora e tendo dislexia, você tem alguma coisa para falar, alguma dica?

Alice: É o que eu falo para todos: respeite as diferenças, respeite os diferentes. Eu acho que a hora que você respeita, mesmo que você não saiba o que é, mas chegou uma pessoa diferente, algo diferente para você, olhe com carinho. Eu acho que é isso que o ser humano hoje em dia, o mundo precisa disso: respeito e empatia. 

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