Educação
‘A EJA precisa se reinventar’, diz professor sobre novo perfil dos alunos
Hoje, público mais jovem ocupa grande parte das salas de aula; Diego Sanchez destaca que os métodos precisam de uma nova roupagem

Por: Eduarda Ferreira

Educador especial fala sobre as tecnologias assistivas e a importância de adesão desse método na EJA | Eduarda Ferreira

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) passa por uma transformação no perfil de seus estudantes. E, com dados comprovasse que mais de 30% a 35% das matrículas na EJA do Ensino Fundamental são ocupadas por jovens de 15 a 19 anos , consolidando a mudança de perfil da modalidade. A presença crescente de jovens divide espaço com adultos e idosos, trazendo novos desafios para uma forma historicamente voltada a pessoas que não concluíram os estudos na idade regular. Para o professor Diego Sanchez Torres, de 37 anos, especialista em educação especial e projetos na EJA, essa mudança exige uma reformulação dos métodos de ensino. “Sim, a EJA precisa se reinventar”, diz o professor. No Brasil, cerca de 1,5 a 1,8 milhão de alunos do Ensino Fundamental apresentam atraso escolar de dois anos ou mais em relação à idade recomendada. Essa defasagem é o principal gatilho para a transferência de massa para o EJA. Diante desse cenário, alunos são transferidos sem que haja uma escolha pessoal, tornando obrigatória a adesão a esse modelo de ensino. Diego acredita que essa transferência chamada de migração perversa causa um impacto que já poderia ter sido resolvido com uma atenção maior à alunos com dificuldades no desenvolvimento, ao invés da negligência que acarreta na evasão em tempo indevido. A nova versão da EJA precisa de atualização de métodos e o mais citado é a adesão às tecnologias, em especial as assistivas.

MEF: Qual é o papel da EJA para moradores da periferia?

SANCHES: Os moradores de periferia que não tiveram acesso à educação na idade adequada por conta da rotina de trabalho, ou saíram muito cedo da escola para procurar uma renda e assim não conseguiram concluir os estudos, acabam retornando para a EJA com o objetivo de ter a oportunidade de concluir os estudos.

MEF:  Você acha que essa juvenilização exige que a EJA se reinvente?

SANCHES: Sim, a EJA precisa se reinventar. Alguns anos atrás, a EJA era voltada mais para idosos, até mesmo por uma questão de socialização, então a forma de trabalho era voltada mais para esse público da terceira idade. Houve uma fase também que a EJA era muito buscada para alunos de inclusão, devido às deficiências, e agora, com esse novo público, precisa se reinventar, trazendo tecnologias para os jovens, para tornar a educação mais atrativa e evitar a evasão.

MEF: Quais métodos poderiam ser usados para não desamparar os adultos e também incluir os mais jovens?

SANCHES: A questão do celular e da inteligência artificial veio muito para amparar, até mesmo na alfabetização. Temos alguns aplicativos que ajudam nesse processo. A inteligência artificial e o celular seriam muito úteis para os idosos que têm dificuldade nessa questão.

MEF:  Houve uma queda de matrículas da EJA. A juventude tem influência nisso?

SANCHES: Sim, realmente houve uma queda significativa na EJA, por dois fatores. O primeiro é a busca pelo mercado de trabalho, sendo que a EJA é uma oportunidade para que eles consigam concluir os estudos. Também houve uma queda por conflitos de gerações, do jovem não querer estar no mesmo público que pessoas mais velhas. Então, é tanto a questão da socialização quanto a questão do mercado de trabalho.

MEF:  Qual é o maior ponto de atrito entre os adultos e os jovens?

SANCHES: A questão de pensamentos e configurações diferentes. Os idosos normalmente procuram a EJA por uma questão de socialização. Já o jovem tem outra cabeça, outra formação. Logo, esses conflitos de mentalidade acabam impactando bastante na não busca pela EJA.

MEF: O sistema tem um impacto nisso por conta da chamada migração perversa?

SANCHES: Sim, esse impacto vem muito de algo que já poderia ter sido feito antes. Se o aluno é repetente, é preciso entender quais são as dificuldades dele e o que pode ser melhorado para que conclua na idade certa. Quando ele já passou da idade, isso acaba sendo um fator que o desmotiva. Então, o sistema acaba fazendo com que ele se evada (desista), sendo que poderia ter feito um trabalho melhor para que ele não chegasse à EJA já desmotivado.

MEF: Os métodos atuais da EJA funcionam?

SANCHES: O método de ensino hoje não é suficiente. Há uma infantilização no processo de ensino, principalmente na alfabetização do EJA Fundamental. São métodos muito infantis para adultos e jovens e seria preciso repaginar essa forma de ensino. Muito se fala sobre IA, e os jovens podem contribuir para ajudar os idosos, enquanto os idosos, pela experiência de vida, também podem ajudar os mais jovens. Essa mudança precisa acontecer para trazer uma roupagem diferente para o grupo que está entrando agora.

MEF: Às tecnologias assistivas podem contribuir nesse processo?

SANCHES: Muitas pessoas comentam que tecnologia assistiva é mais para o público com deficiência. Mas, na verdade, não. A partir do momento que as tecnologias assistivas conseguem trazer uma melhor metodologia de ensino para o jovem e para o mais idoso, com certeza podem ser usadas no processo ensino-aprendizagem.

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