
Palestra discute desafios e caminhos para o jornalismo negro | Ana Clara Meneses
A discussão sobre diversidade e representatividade no jornalismo ganhou espaço em palestra realizada durante a III Semana de Comunicação da FAPCOM. Com o tema “Negritude e Jornalismo”, a jornalista Beatriz Mirelle apresentou um panorama sobre os desafios e caminhos para profissionais negros no mercado.
Ao longo do encontro, a palestrante contextualizou a atuação do chamado jornalismo negro como um movimento de enfrentamento à mídia hegemônica, destacando a necessidade de ampliar vozes e narrativas dentro das grandes redações. Entre os principais obstáculos, apontou a dificuldade de expressar a negritude de forma plena, além de posturas “evitativas” diante de conflitos raciais no ambiente profissional.
Beatriz também compartilhou sua trajetória e ressaltou a importância da construção de portfólio ainda na graduação. Segundo ela, o trabalho de conclusão de curso foi determinante para sua entrada na emissora de TV Band. Projetos autorais, como o “Diáspora à Mesa”, que une jornalismo e gastronomia, foram citados como exemplo de como iniciativas independentes podem abrir portas e consolidar uma identidade profissional.
No campo prático, a jornalista abordou estratégias de apuração e narrativa, defendendo um jornalismo acessível e fiel aos fatos. “Só de contar a história, você já expõe uma realidade”, indicou, ao falar sobre a importância de evitar juízo de valor e manter rigor na reprodução das falas dos entrevistados. Casos de violência policial e processos de injúria racial foram utilizados como exemplos de como o uso de dados pode ampliar a compreensão do público sem comprometer a objetividade.
A palestrante também chamou atenção para a necessidade de diversificar pautas envolvendo a população negra, para além da cobertura de violência. Reportagens sobre direito à cidade e manifestações culturais, como bailes blacks, foram citadas como caminhos para ampliar a representação.
Após o evento, Beatriz destacou o papel dos projetos pessoais na ampliação de pautas que nem sempre encontram espaço na grande mídia. Segundo ela, iniciativas independentes, incluindo veículos contra-hegemônicos como Agência Mural e Alma Preta Jornalismo, também funcionam como portfólio e estratégia de inserção profissional.
A jornalista defendeu que os estudantes não devem abandonar pautas recusadas por grandes veículos, mas buscar outras formas de publicação e circulação. Para ela, a produção dessas reportagens contribui para a formação de repertório, construção de agenda de fontes e visibilidade no mercado, especialmente no período universitário. “Tudo é portfólio”, resumiu, ao reforçar que criar, mesmo sem publicação imediata, é parte fundamental do processo de formação.
Beatriz também reforçou a importância da persistência e do compromisso com a profissão, mesmo diante de frustrações. Projetos pessoais, segundo ela, funcionam como ferramenta de visibilidade e construção de repertório, além de aproximar estudantes do mercado.
Ao final, a jornalista destacou o papel das redes de apoio e da busca por referências na formação profissional, apontando coletivos negros dentro das universidades como espaços fundamentais de acolhimento e fortalecimento.