Direitos Humanos
‘Polarização política adentrou a Igreja’, diz pe. Erivaldo
Erivaldo Dantas explica o motivo por trás das mudanças progressistas no Catolicismo

Por: Daniel Andrade

A Igreja Católica está realmente mudando? As diversas transformações sociais que ocorreram nos últimos tempos, vêm causando diversos debates dentro da instituição mais influente do mundo. Segundo o Censo 2022 do IBGE, a proporção de católicos no Brasil caiu de 65% em 2010 para 56,7% em 2022, uma redução de 8,3 pontos percentuais. Desde questões de como a missa pode ser conduzida até dilemas mais abrangentes, como a relação da Igreja com os direitos das mulheres, o Catolicismo passou a enfrentar diferentes desafios e discussões sobre a sua relação entre as mudanças na sociedade. Para entender melhor esse fenômeno, o Prof. Pe. Dr. José Erivaldo Dantas explica como diferenciar e compreender como e quando essas mudanças aconteceram, sua relação direta com a perda de fiéis da Igreja Católica, oposições claras às transformações, o papel do pontificado e a diminuição da sua influência na sociedade contemporânea.

‘Não podemos falar que a Igreja está mais progressista, ela é o que é’ | Daniel Andrade

DA: A Igreja realmente está ficando mais progressista?

Erivaldo Dantas: A pergunta carrega um problema histórico. A Igreja tem a sua história, sua configuração, sua teologia e a sua origem. No Brasil, está presente desde a chegada dos portugueses, trazendo uma teologia europeia. Com o desenvolvimento do país e do mundo, surgiu a necessidade de repensá-la. Na década de 1960, surgiu a Teologia da Libertação, que trouxe uma perspectiva de Igreja mais progressista, em contraposição à teologia tradicional vinda de Roma. Mas não podemos dizer que a Igreja está mais progressista, ela é o que é. Ela tem sua doutrina, características, dinâmica e história.

DA: O que diferencia essas mudanças históricas com as transformações atuais?

Erivaldo: Essa discussão entre uma Igreja mais progressista ou uma Igreja mais conservadora, está presente desde muito tempo na Igreja. O que aconteceu foi que essa perspectiva de conservador ou progressista, tomou a política brasileira de modo especial e âmbitos internacionais também. Essa perspectiva de uma dimensão política polarizada, também adentrou a Igreja. De modo que hoje você quase não consegue fazer essa dissociação entre uma perspectiva progressista e uma perspectiva conservadora política e religiosa.

DA: O Papa pode adotar uma postura mais progressista sem mudar os dogmas da Igreja?

Erivaldo: Os dogmas da Igreja estão dentro do que chamamos de depósito da fé, que é tudo aquilo que diz respeito à tradição da Igreja e o que foi construído ao longo da história. Nós acreditamos que um Papa está no lugar sob ação do Espírito Santo e portanto ele não tem autonomia de mudar as regras da Igreja por sua própria vontade, mas pode propor mudanças e reflexões. Claro que o Papa Francisco tinha um olhar considerado um pouco mais progressista. Não porque ele necessariamente fosse progressista, mas porque ele trouxe para o cenário religioso e para a perspectiva religiosa, reflexões que talvez outro Papa não colocasse. De repensar o lugar da mulher, dos imigrantes e do pobre dentro da Igreja. Por isso que ele foi colocado nesse lugar. Mas na verdade o que Francisco fez, foi trazer o que o Evangelho coloca como elemento natural e daquilo que Jesus trouxe como projeto da sua própria vida, da missão e do seu projeto de salvação.

DA: A Igreja precisa se adaptar para manter a sua relevância?

Erivaldo: Não necessariamente. A Igreja tem a sua história, o seu depósito da fé, a sua compreensão e ela busca fazer com que a sua realidade esteja na história, sem necessariamente precisar alterar os seus parâmetros ou alterar a sua existência para se adequar ao contexto atual. E talvez seja isso o que fez com que a Igreja permaneça como ela é ao longo de todo esse tempo.

DA: Por que a Igreja ainda enfrenta dificuldade de manter os fiéis, principalmente entre os jovens?

Erivaldo: Teria que observar um pouco melhor esses dados. Embora se diga que há uma onda decrescente em relação à Igreja Católica, o que se percebe é que há um movimento de ascensão também. Se observarmos como aconteceu a história da Igreja Católica no Brasil, por exemplo, ela veio junto com o processo de colonização, de modo que todo mundo que teoricamente faz parte desse contexto brasileiro, era considerado católico. Mas não um católico que necessariamente compreendia o significado do ser católico. O que existe hoje é um movimento que busca o significado verdadeiro do ser católico. As pessoas se colocavam dentro de uma condição de catolicismo que era a religião presente. Entretanto, o que se percebe, é que há uma busca pelo entendimento do que significa verdadeiramente ser católico. E por isso que hoje, existe um catolicismo um pouco mais apurado, onde o católico busca entender, estudar, compreender e verdadeiramente viver a fé.

DA: Existe uma oposição contra essa mudanças dentro da igreja ? E se existe, como que a igreja as interpreta?

Erivaldo: Essas posições entre progressistas e conservadores sempre existiram dentro da igreja. Desde o Concílio Vaticano II, constituído pelo Papa João XXIII e o modo como ele articulou a forma de repensar o papel da igreja na sociedade, tinham aqueles que queriam que a igreja abrisse suas portas, e que a igreja se voltasse de fato para o mundo e em contrapartida, existem aqueles que queriam preservar a igreja dentro de outros parâmetros. Acontece que hoje, com as redes sociais e com a  dimensão da polarização, tomou proporções muito maiores, inclusive pessoas que afrontam a própria pessoa do Papa, ou até mesmo a autoridade dos bispos locais das conferências episcopais. Esse é o grande problema que a gente vive hoje dentro dessas discussões. Porque quando tratamos essas discussões dentro do âmbito interno, dá para dialogar e chegar a um objetivo. Agora, quando essas discussões extrapolam outros contextos para além do âmbito eclesial, cria-se cenários muito problemáticos e divergentes. Essa discussão sai daquilo que seria apenas o âmbito interno, entre bispos, padres, religiosos e religiosas, e ganha proporções extremamente grandes, inclusive dentro do âmbito político. Muitas vezes os políticos se sentem no direito de discutir questões que são próprias do âmbito religioso e eclesial.

 

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