Vila Mariana é polo de empreendedoras

Por: Isabelli Guertas Martins da Silva e Maria Luiza Almeida Matiolli

A Vila Mariana está entre os bairros com maior concentração de Microempreendedores Individuais (MEIs) e é considerado um importante pólo para mulheres empreendedoras, tendo em vista tanto a quantidade delas como também a infraestrutura criada para apoiá-las.

O “Rede Mamães Empreendedoras Conecta623” é uma das instituições criadas para oferecer apoio às administradoras da região. Fundado pela enfermeira da Vila Mariana Mayumi Linoba, de 60 anos, o projeto surgiu após a maternidade e depois de analisar outras mães em seu prédio. “O objetivo maior é justamente fazer esse apoio, incentivar, capacitar e divulgar o trabalho das mães empreendedoras do bairro.” Ela também explicou, separando em três pilares, o funcionamento do Conecta623. O primeiro pilar se trata da divulgação em redes sociais, o segundo são os eventos realizados, como “Papo de mãe” e “Conecta empreendedoras”, para que as mulheres participantes do projeto se conheçam e criem uma rede de apoio, e o terceiro é o suporte social.

Cafeteria Clarice café & cozinha, fundado e comandado por Ana Dib, é marco de conquista feminina na Vila Mariana | Isabelli Guertas

Uma sondagem realizada nos empreendimentos localizados ao redor das estações Ana Rosa e Vila Mariana aponta que 14 dos estabelecimentos da região são comandados por ao menos uma mulher, o que indica um crescimento no comando feminino nos negócios do bairro. Apesar disso, a segregação nos setores e nas oportunidades disponibilizadas para mulheres continuam sendo empecilhos para o aumento destes dados, como apontado pela mestre em empreendedorismo feminino pela USP (Universidade de São Paulo), Andressa Conti.

Para a especialista, que iniciou sua carreira na RGE (Rede Global de Empreendedorismo de Campinas), a dificuldade que as mulheres têm durante o processo de criarem seus negócios vem principalmente da pressão histórica e social, da dupla jornada do trabalho e da falta de investimento nas ideias apresentadas por mulheres.

Segundo ela, apesar da constante evolução no número de força feminina dentro da área, o machismo estrutural ainda se manifesta fortemente nos espaços que são majoritariamente coordenados por homens, como, por exemplo, nas áreas de atuação nas quais os negócios femininos têm mais sucesso. “Enquanto a mulher está muito envolvida ali com beleza, e o mundo alimentar, os setores que os homens são envolvidos normalmente são diferentes. Então, acho que ainda tem uma segregação, mesmo que a quantidade total de empreendedores seja mais similar.”

Andressa também indica que a dificuldade em captar recursos é um grande empecilho para o avanço das empresárias, e isto devido ao viés de gênero, já que as bancadas investidoras são quase que completamente compostas por homens brancos. Ademais, grande parte das mulheres que já são mães evitam seguir em uma carreira em novas áreas pela incerteza de que irão conseguir sustentar seus lares caso suas empresas passem por um período de déficit de lucro.

Mayumi, que experienciou essa realidade na Vila, fala sobre a maior dificuldade em se tornar empresária enquanto também precisa gerenciar o lar. “Nós temos que gerenciar a nossa casa. E a maior dificuldade das mulheres e das mães é conciliar essas atividades. E normalmente, a prioridade sempre acaba sendo os filhos”.

Para Andressa, o consumo do público feminino também é afetado pela escala de trabalho mais longa em relação aos homens. “Há muitas [mentorias] que não têm um olhar feminino no sentido de atender e se adaptar às necessidades específicas das mulheres”. Mayumi reforça essa ideia afirmando que as mães gostam de comprar de outras mães. A preferência do público feminino por negócios liderados por mulheres é visível devido a identificação com estabelecimentos pensado para suas realidades.

Nós temos um olhar diferenciado quando nos tornamos mães” – Mayumi, 60, enfermeira

 

Andressa também afirma que existem três possíveis pilares de ação para que o cenário empreendedor se torne completamente igualitário, sem distinção de gênero, cor ou classe social. A base da mudança, segundo ela, deveria ser governamental, com implementações de políticas públicas que corroborem para que as mulheres tenham a mesma oportunidade de investimento e o mesmo tempo de dedicação para suas inovações
quanto os homens, como oferecer creches para terem onde deixar seus filhos durante o horário de trabalho.

O segundo meio de ação proposto parte do setor das organizações e empresas privadas, responsáveis por promover e divulgar eventos em que novas empreendedoras pudessem propor suas ideias e entrar em contato com investidores de várias áreas. O terceiro é consequência direta dos outros dois, diz Andressa, por se tratar de um movimento orgânico de comunidade, em que as oportunidades dispostas permitiriam com que estas mulheres criassem laços e inspirarem umas às outras com suas trajetórias.

Os relatos de mulheres que superaram as adversidades postas em seus caminhos e tiveram sucesso na área em que empreenderam são estímulos para todas as mulheres que sonham com a possibilidade de serem donas de seus próprios negócios, e o aumento gradual do público feminino nas estatísticas reflete esse desejo.

A iniciativa desenvolvida por Mayumi mostra a evolução dos negócios femininos no empreendedorismo, criando espaço acolhedor para mulheres que pensam em fundar seus comércios. Esta ação também é amparada pela percepção de Andressa. Para ela, a última década vem apresentando mudanças significativas na representação feminina nesses espaços.

Sucesso que inspira mulheres do bairro

 

A Vila Mariana demonstra a evolução de espaços que incentivam empreendedoras cada vez mais. Um dos estabelecimentos mais conhecidos do bairro é o Clarice Café & Cozinha, o restaurante, inaugurado em 10 de dezembro de 2024 – aniversário de Clarice Lispector – é chefiado por Ana Claudia Dib, de 64 anos. Conhecido pela estética inspirada nas obras da autora, ambiente acolhedor e cardápio vegano, Ana declarou que está
satisfeita com o bairro, que traz o apoio necessários para antigas e novas empreendedoras, sendo também um bom pólo que atrai públicos diversos diariamente.

“Gosto mais pelo fato de dar certo, dos resultados no fim do dia serem bons. Os envolvidos irão pra casa sabendo que cumpriram seu trabalho com amor e dedicação”, afirma a empreendedora. Ana também fala sobre seu início, marcado por um sonho que, com objetividade e ética, conseguiu alcançar, ela também dá destaque ao retorno positivo recebido pelo público engajado do bairro, com feedbacks tanto de funcionários como clientes.

“Porque não vai ser fácil, a jornada não é fácil. Então eu acho que ter a confiança em si mesma, na sua capacidade – Andressa Conti, economista

 

Como incentivo às novas empreendedoras, Andressa, tendo como base suas pesquisas e sua irmã que empreende, aconselha: “Confiança. Se sentir segura, sabe? E eu acho que isso é um fator muito grande.” Ana e Mayumi compartilham o incentivo afirmando que, apesar de dificuldades, continuar focada em seus objetivos e sonhos é a chave para um bom negócio. “Nessa minha jornada como mulher e como mãe, o que que eu vejo? Que nós mulheres nós não nos colocamos como prioridade, nossos sonhos. Então eu acho que esse é o momento. Quando a gente começa a empreender”, afirma Mayumi.

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