As vagas afirmativas para pessoas negras surgiram como resposta à exclusão histórica da população negra do mercado formal de trabalho. Elas começaram a ganhar força a partir dos anos 2000 e foram inspiradas nas cotas educacionais e incentivadas por iniciativas como o Programa de Promoção da Igualdade Racial no Brasil, que teve maior visibilidade na última década. O objetivo dessas vagas é muito claro, ampliar o acesso de pessoas negras a cargos e promover diversidade racial nas empresas. No entanto, na prática, muitas delas ainda carregam exigências que funcionam como barreiras, como a fluência em um segundo idioma, exigência de experiências formais ou até mesmo o chamado “perfil executivo”. Bastou olhar os requisitos, para Marcus, perceber que aquilo não era para ele. “Pedia inglês avançado, experiência em projetos e boa comunicação. Eu pensei: “isso é vaga afirmativa pra quem?”. A frustração dele é compartilhada por muitos outros jovens negros de periferia que mesmo sendo o público-alvo das ações afirmativas, continuam se sentindo excluídos.
Quando a vaga é afirmativa, mas não é para você
Morador da zona norte de São Paulo, Marcus é daqueles jovens que carregam nos ombros o peso das estatísticas, mas não se limitam a elas. Aos 19 anos, divide o tempo entre o trabalho como jovem aprendiz, em um banco, e a faculdade à noite. Uma rotina puxada, com poucas horas de sono, quase nenhum tempo livre e muita responsabilidade. Marcus, por exemplo, não teve curso de idiomas, nem intercâmbio, nem tempo para projetos voluntários.

Jovens da periferia passam diariamente por longos trajetos até o trabalho | Reprodução: Henrique Franzé
Exigências técnicas ou barreiras invisíveis?
Para Nalanda Silva, especialista em recursos humanos e diversidade, esse tipo de vaga não resolve o problema. “Abrir uma vaga afirmativa não é suficiente. É preciso revisar os critérios e entender o contexto social dos candidatos e, treinar toda uma empresa para receber esses candidatos. Senão, seguimos reforçando o mesmo elitismo com uma narrativa de inclusão”, explica.
Além disso, ela ressalta que critérios como “boa comunicação” ou “postura executiva” muitas vezes carregam uma expectativa de comportamento que segue padrões brancos e de classe média alta. “Quem define o que é se comunicar bem? Muitas vezes, quem vem da periferia fala diferente, tem outro vocabulário e isso é visto como inadequação, quando na verdade é só outra vivência.”
A estrutura que dificulta o acesso
Apesar das vagas afirmativas, o mercado de trabalho opera com critérios que favorecem apenas uma parcela da população e quase nunca são os jovens negros de periferia. Além de idioma e comunicação, são exigidos outros filtros. Em muitos casos, esses critérios são determinantes já nas primeiras etapas de seleção, e cria um funil que exclui quem não teve acesso a esses recursos.
Segundo a pesquisa da Gupy, uma das maiores plataformas de recrutamento e seleção, que foi realizada em 2022, das cerca de 600 mil vagas publicadas no site, apenas 1% eram afirmativas. Dentro desse total, apenas 5% eram direcionadas especificamente para pessoas negras. Isso significa que, na prática, menos de 0,05% das vagas totais eram acessíveis para esse público. Além disso, a maioria dessas vagas afirmativas estava concentrada em grandes empresas, com mais de mil funcionários.
Por uma inclusão real
Mesmo com todas as barreiras, Marcus acredita que é possível mudar. Ele quer crescer na empresa onde está, aprender mais e, no futuro, ajudar outros jovens, como ele, a conquistarem um espaço.
Para Nalanda, um jovem negro só precisa de uma oportunidade de verdade para mostrar todo seu potencial. “Quem vem da periferia traz experiências diferentes, habilidades valiosas e que podem contribuir muito, só precisam de uma chance real”, explica.
Ela defende que recrutadores e gestores precisam ser treinados para entender essas diferenças e que ser diverso não é só contratar alguém preto, é também aceitar jeitos diferentes de se vestir, falar, aprender e trabalhar. “Inclusão não é sobre encaixar todo mundo num padrão. Ésobre abrir espaço pro que é diferente. Não é o jovem preto que tem que se moldar. É omercado que precisa se transformar”, diz.
Supervisão: Profa. Vaniele Barreiros